Siga-me!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

VIDEOCLIPE



Texto produzido em 2015.

Imagens estáticas ou em movimento ganham um valor novo quando a vida nos coloca diante da morte de uma pessoa muita amada. Desde a última vez em que isso me aconteceu, há sete meses, desenvolvi verdadeira fixação por recuperar imagens de vídeo e postá-las na internet, para que fiquem para sempre na tal nuvem, sem possibilidade de se perderem por qualquer motivo. Passei a imprimir fotos que só existiam em meio digital, cobrir as paredes da casa com murais temáticos em papel isopor, entre outras manias.

Lembro a primeira viagem que fizemos sozinhos, meus filhos e eu, depois da morte do meu marido. Fomos para Pirenópolis, mas parecia que íamos para a lua de tão difícil que foi tomar essa decisão, pegar o carro, colocar os meninos dentro e sair do Distrito Federal. Lutava contra o fantasma de uma sensação absoluta de vulnerabilidade pela falta da presença protetora dele ao nosso lado e contra o desânimo com relação a qualquer programa. De alguma maneira, venci, ou simplesmente saí da paralisia, e fomos.

Para os que não conhecem a estrada entre Brasília e Pirenópolis, explico que, ao transitar nela, especialmente em tardes luminosas de abril, como era o caso, percebe-se nitidamente que a terra é redonda. Isso gera a impressão de que a pista está baixando, em direção ao céu, como se o carro fosse pousar nas nuvens. “Olha só, gente, estamos indo para o céu!”, exclamei em voz alta. Ao que meu filho menor replicou: “quem será que vamos encontrar lá?”. Por um segundo, senti nitidamente uma inundação de alegria tomar conta do carro, e respondi: “O papai, é claro!”.  A mágica de algum fenômeno físico o qual não compreendo, mas que está ligado à incidência da luz naquele trecho da rodovia, nos fez imaginar, por alguns segundos, que podíamos mesmo encontrar esse homem e esse pai, cuja presença física ainda é um buraco no nosso cotidiano.

Naquele instante, compreendi, talvez pela primeira vez, a fascinação do meu amor por imagens, registros e recordações de todo tipo – gravações de áudio, pequenos papéis, quinquilharias diversas. Cada vez que pegávamos a estrada, em viagem ou mesmo na cidade, tinha gosto por parar uma, duas, três, dez vezes (se eu deixasse), no meio dos caminhos, para fotografar, me causando muitas vezes irritação pelos tradicionais atrasos que isso provocava. No tempo da fotografia com filme de verdade, chegou a bater dez rolos de 46 poses, em dez dias de viagem ao Peru, em 2002.

Nunca tinha me dado conta, até nossa viagem de Brasília a Pirenópolis, o quanto pode ser precioso capturar um momento, deixando-o congelado em algum papel ou mídia, nos possibilitando o recurso de retornar a ele, eternamente. Como se a visão de uma foto ou de cenas de um vídeo de casamento nos permitissem devolver a vida, a quem não volta mais, e assim fosse possível reviver pelo menos um pouquinho esses momentos.

Neto de imigrantes italianos, criado em usina de açúcar no interior, meu marido sempre viveu cheio de saudades - da terra dos avós, a qual nunca conheceu, e do Cerrado paulista, onde nasceu. Perdi minha mãe muito cedo, mas nunca me permiti, até muito recentemente, sentir saudades dela ou do nosso tempo juntas. Era uma dor grande demais para mim aos 17 anos e continuou sendo durante muitos anos. Só agora, quando se completam 23 anos da sua partida - nesse agosto frio, seco e cheio de vento -, me permito também o apego às imagens dela em vídeos de Super 8 ou em fotos esparsas, resgatando, pouco a pouco, a minha mãe amorosa, libertária, divertida e linda que admirei fervorosamente, mas a qual tinha pavor de lembrar por medo de não suportar a sua ausência e morrer também.

Hoje sei que foi ela quem fez de mim a mãe que pude ser para as minhas irmãs mais novas por um bom tempo e que sou hoje para os meus filhos, nesse luto inesperado do homem que sempre nos pareceu o mais forte do mundo. Como bem observou nossa filha: “pensei que algo pudesse acontecer com qualquer pessoa da nossa casa, menos com ele!”. Era o que achávamos todos, mas infelizmente nos enganamos.

Mas, mesmo depois da sua morte, continuo aprendendo coisas com o meu amor. Saudade não mata e, se vivida sem medo e com lucidez, pode até nos ajudar a fechar feridas e compreender quem somos hoje e como chegamos aqui. Assim, nesse luto recente, me permito ficar olhando fixamente para fotos dele até parecer que está saindo do papel e vindo em minha direção, tipo naquela brincadeira do olho mágico. Meus pontos favoritos para focar a vista e provocar essa ilusão de ótica são sempre sua boca e seus olhos.

Nesse videoclipe que venho editando e assistindo nesses meses de separação física, tenho uma cena preferida: nós dois dançando colados, no nosso casamento. Vejo ali o aconchego, a alegria, a diversão e o movimento, marcas da nossa vida juntos. E, quando fecho os olhos, aquela cena se multiplica em mil outras registradas apenas no meu coração, em que ele me puxava para dançar assim. Enxergo ainda, naquela dança “nupcial”, as esperanças que trouxemos individualmente para dentro dessa união, principalmente a vontade de incluir dentro dela os filhos nascidos antes do nosso encontro e a liberdade que conquistamos antes de chegarmos ali, por caminhos muito diversos.

Nesses meses de luto e despedida, tenho muitas dúvidas sobre o futuro, assunto que procuro evitar. Mas também construí certezas que me servem de bússola nesse mar de saudade. A primeira: dois filhos companheiros, amorosos, íntegros e valentes, ao meu lado nessa travessia cotidiana, me dão a certeza de que, seja qual for o destino, vale a pena. A segunda: a tristeza e a dor muitas vezes cruzam o nosso caminho sem que a gente as provoque ou mereça, mas a alegria e a liberdade têm que ser buscadas, todo dia. A terceira: foi aceitando os enormes desafios que o meu encontro com meu marido me trouxe e me entregando a ele que descobri quem sou de verdade e isso, certamente, vale todos os anos que vivemos juntos e mais aqueles muitos porvir, nos quais terei de caminhar neste mundo, sem ele fisicamente ao meu lado, mas eternamente dentro do meu coração.

13 comentários:

  1. O meu abraço mais q apertado.
    De algum plano, ele acompanha a sua jornada. Que a alegria e a felicidade sempre estejam com vcs
    Ana Paixão

    ResponderExcluir
  2. Marina, querida, de vez em quando me pego com saudade do nosso querido Junão, imaginando o quanto é absurda a ideia de que ele não está mais aqui, ao alcance de uma ligação de celular ou de uma mensagem daquelas que a gente manda de vez em quando: "Ô Junão, tá sumido, pô! Vamos almoçar ou tomar um café? Tô com saudade!". Junão, cara, tô com saudade...

    ResponderExcluir
  3. Marina, como você não tem facebook, copiei as mensagens que as pessoas deixaram na minha página sobre o vídeo, pra você ler também. :-) Beijos.

    Maurício Kozak: "Ficou lindo Beto!"

    Niti Merhej: "Que bonito."

    Joana França: "Eu tinha visto o clipe no YouTube, mas não sabia da história.
    Emocionante. Um beijo pra você e outro pra Marina."

    Ana Paixao: Mandou uma figurinha de Snoopy e Charlie Brown abraçados.

    Josi Paz: "beto, eu assino o teu canal no youtube. recebo os alertas. vi qdo vc subiu esse video. dei share na hora. me tocou muito e eu nem sabia da história. essa é uma das minhas favoritas. ficou lindo! obrigada a ela e a vc por isso."

    Luciana Navarro: "Ai Beto, lindo! Chorei com o clipe e o texto."

    Dante Nardelli Jr: "Lindo e emocionante!"

    Enir Menezes: "Ficou muito legal Beto."

    Freddy Charlson: "Marina é puro amor. Beto, idem. Por fim, #SddsBuarim"

    Thaís Cieglinski: "Lindo. O texto, as imagens e a música!"

    Guaira Flor: "Lindo!!!"

    Andrea Cordeiro: "Uau! Lindo e dolorido!"

    Dalila Goes: "Emocionante! Lembro tanto desse dia. Que texto, que música!"

    ResponderExcluir
  4. Sem palavras. Isso é puro amor. Eterno, eternizado, duradouro e firme como a rocha. Lindo texto, lindo vídeo, linda homenagem.

    ResponderExcluir
  5. 2 queridos. texto lindo. amor mais lindo ainda

    ResponderExcluir
  6. Só posso agradecer! Primeiro ao Beto pela sua extraordinária sensibilidade e amizade para captar uma vida inteira em três minutos de música (perfeita!) e imagens. Depois a todo o carinho que tenho recebido dos amigos e familiares, e também de gente que de longe manda energias positivas que ajudam a gente a caminhar.

    Beijos

    Marina

    ResponderExcluir
  7. Minha querida amiga, tive que dar uma pausa para escrever este comentário. Texto lindo e emocionante, como todos os outros do blog. É impressionante como vc consegue de forma tão leve imprimir tantos sentimentos nessas linhas. Meu dia sempre muda - pra melhor - depois que passo por aqui. Beijos.

    ResponderExcluir
  8. Marina, tive o privilégio da amizade do Junão durante aqueles anos dourados da graduação em comunicação na UnB. Perdi depois muitas coisas na vida, inclusive o contato com ele. Impossivel esquecer aquele sorriso doce, aquela natureza humana tão bonita. Saber da partida dele através do seu texto foi importante para mim. Obrigado por compartir as suas palavras e as suas imagens. Elas vão ficar comigo para sempre. Mauro Porto.

    ResponderExcluir
  9. Marina, não te conheço mas conheci o Buarim e o admirava muito. Extremamente profissional e dedicado, mesmo em momentos de muito estresse. Daqui de longe sinta-se abraçada.

    ResponderExcluir
  10. Patinete, mais recadinhos deixados pelos amigos no Facebook:

    Daniella Goulart: "Ô Beto! Obrigada por compartilhar. Me deu uma saudade danada do meu amigo Junão. E texto lindo da Marina. Amor daqui até a eternidade!"

    Deborah Dornellas: "lindos. Deu muita saudade do Junão."

    Leonardo Cavalcanti: "Lindo"

    Maria Vitoria: "Obrigada Beto por dividir essa lindeza."

    Vicente Nunes: "Lindo. Marina, guerreira, amo você!!!!"

    Claudia Nardelli Santos: "Beto ficou muito lindo!!!!"

    Piu Gomes: "Ó sodade..."

    Eunice Pinheiro: "Q lindo!"

    Adriana Freire: "Lindo vídeo, acompanhamento musical perfeito e um texto humanamente maravilhoso! Sim, "lições que só a vida ensina...""

    Taís Morais: "Lindo demais"

    Fernanda Nascimento: "Que legal"

    Gabriela Bia: "beto, q lindo. ainda tenho q ouvir a música direito. a história forte e a imagem do casal roubam a cena por melhor que o "pano musical". Agora o difícil aqui tá sendo parar de ler o blog..."

    ResponderExcluir
  11. Querida, acho que nunca vou me cansar de ver esse vídeo!

    ResponderExcluir